sexta-feira, 17 de julho de 2026

Comédia

Por mais vezes sem rumo 
Um eco de mim 
Um possibilidade 
As vezes medíocre
As vezes melhora
Um tanto de coisa 
Um tanto de bosta
Não saio de casa 
Não vejo jardins
Não conto piada
Não faço teatro 
Sem festa nem fraudes
Apego por zelo
Um Zé outro Zé 
Comum como qualquer um
Com frases na ponta
É um carma sem fim 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Sem malha

Na tentativa, na falha
Sem erro e sem malha 
Um caminho uma sentença 
Um amor e uma ofensa

Nem mais e nem menos
Um agora e um sofrimento 
Já me perco entre lágrimas 
Me afogo na fornalha 

Um gota e um pesar
Mais um dia sem pensar
Mas um fim que ninguém vê 
E escondo dos espelhos

Calma mente, me alivia 
Se perca em euforia 
E me deixe na ruína 
De um novo dia

quinta-feira, 9 de julho de 2026

outro talvez



Antes fosse.

Antes era.

E agora...

o que eu sou?

Não sou isso.

Não sou aquilo.

Não encontro o meio

entre o que fui

e o que ainda não sei.

Às vezes penso

que sou exatamente quem sou.

Às vezes,

acho que nem isso.

Saber quem se é...

desde quando?

Talvez.

Quem sabe.

Será que isso é real?

A realidade.

Os planos.

O tempo.

Tudo parece existir

sem nunca me alcançar.

Às vezes paro.

Penso.

Viajo.

Caminho.

Sonho.

Desejo.

Nada disso me devolve.

No máximo,

me lembra.

Talvez sejam

palavras soltas.

Talvez não.

Só sei de uma coisa:

tudo parece ser

aquilo que a gente quer.

Mas querer

vai além

daquilo que a gente vê.

E ver

também ultrapassa

o que a gente consegue fazer.

Às vezes acho

que digo coisas

completamente sem sentido.

Na maioria das vezes...

talvez diga.

Mas...

quem foi

que decidiu

que o sentido

precisa existir?

a pessoa do meio



Nesse momento,

me encontro.

Logo em seguida,

já não me sinto.

Já não me tenho.

Horas sou silêncio.

Horas sou escuridão.

Às vezes,

um brilho sozinho

no meio do nada.

Quem sabe um amigo.

Quem sabe um amante.

Um pouco de cada.

Um pouco de nada.

Quem sabe

se eu fosse.

Quem sabe

se eu era.

Quem sabe

quando virei

alguma coisa.

Quem me dera.

Eu tento

e não faço.

Eu faço

e não vejo.

E se tudo isso

fizer parte

de um plano?

Alguém por aí

escrevendo uma história

comigo no meio.

Que loucura...

Eu viajo.

Eu sonho.

Eu tento.

E quem sabe...

eu seja

a pessoa do meio.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Tempo

Em um copo, meio cheio 
Nada encontro, nem um freio 
Uma batida ou uma hipótese 
Um sentido ou um norte.
Grande coisa, não me busco
Nem me apelo aqui no fundo 
Não me acho em minha casa
Nem na rua onde estive
Compro sempre as mesmas mortes
Me enxugo em traumas leves
Onde estou, onde vou
Eu perdi o interesse 
As vezes finjo as vezes fujo 
Mas cadê o realmente.
Nada tem e nada dou
E vago ao leu do arpoador
Fome cansa de se ser firme 
Mas enfeito os dias tristes
Venha logo,ò grande fim
Leve o resto que há de mim
Pois não sobrou quase nada
Do que um dia houve aqui.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

a lenda



Certa noite,

à meia-noite,

um lobo,

sozinho,

olhava o céu.

E assim pensava:

"Que amor é esse

que sinto pelo todo?

Pelas estrelas

e pelo breu?

Quem me contempla?

Quem escuta

meu uivar

ao anoitecer?"

Não sabia

se existia um tempo.

Nem um destino.

Nem um caminho

que devesse seguir.

Mas seguia o canto.

E ouvia vozes

que o haviam trazido

até ali.

Se as estrelas

pudessem responder,

talvez dissessem:

"Seu louco...

não cante para o mundo

aquilo

que apenas você

deveria ouvir."

Mas...

essa nunca foi

a verdadeira história.

Porque,

muito antes

do primeiro uivo,

uma estrela

já conhecia

o segredo.

Sabia

que o amor

é apenas

o canto

de um lobo

para a lua.

Mesmo sem saber

que a lua

sempre esteve

escutando.

sentido


Na verdade,

eu nunca soube

como começar

absolutamente nada.

Gosto de frases curtas.

Mas também gosto

das longas.

Às vezes enfeito palavras.

E gosto

quando enfeitam

as que me dizem.

Não porque me importe

com o sentido exato delas.

Mas porque preciso

que tudo faça sentido.

Se um dia me perguntarem:

"Você conseguiria amar

sem pensar,

sem hesitar?"

Direi que sim.

Porque sei

que eu consigo.

Mas...

quem faria

o mesmo por mim?

Se em ninguém

consigo confiar.

Eu desabafo.

Abro o coração.

Abro a mente.

Faço todo o trabalho

para que, no fim,

me digam apenas:

"É... né... complicado."

E talvez seja.

Nada disso é épico.

Nada disso é surreal.

É apenas

meu dia.

Minha noite.

Minha madrugada.

Apenas eu.

Sem nada mais.

Não tenho

um grande vocabulário.

Não tenho

discursos prontos.

Não tenho

uma mente inabalável.

Nem grandes feitos

para mostrar.

Mas...

quem sabe

seja justamente isso

que me faz existir

do jeito que existo.

Nunca me achei criativo.

Nem tento inventar mundos.

Mal saberia

contar uma piada.

Mas deixa eu te dizer

uma coisa.

Se você conseguiu

enxergar tudo

o que eu disse...

é porque,

em algum momento,

alguma parte de você

também encontrou

sentido.

E talvez...

isso já seja

o bastante.

Descascar




Existe em mim

uma parte

que, mesmo sem querer,

ainda luta

para ver o sol.

Para ver a lua.

Para ver, um dia,

uma flor nascer.

Não que eu plante alguma coisa.

Nem que eu tenha tempo

de esperar brotar.

Mas...

quem sou eu

para esperar?

Sempre me julgo paciente.

Até com quem

talvez não devesse.

Se o amor

me faz contente...

por que diabos

eu fujo dele?

Tenho medo.

Tenho dramas.

Choro fácil,

se insistir.

Mas quase nunca insisto.

Quase sempre

eu apenas faço sorrir.

Não a mim.

Mas todo mundo

que cruza meu caminho.

Quero que pensem

que talvez

eu seja alguém

que vale a pena ter.

Só que,

quando fico sozinho,

descubro

que não há ninguém

para ser.

Existe um eu.

E existe...

eu.

Nenhum dos dois

faz questão

de existir inteiro.

Como uma fruta

no meio das podres,

eu nunca consegui

apodrecer.

E, mesmo assim,

não sirvo para nada.

Às vezes penso

que devo ser de plástico.

Ou talvez

eu tenha apodrecido

por dentro,

sem perceber.

Talvez,

no meio do caminho,

eu tenha vivido

coisas

que nunca chegaram

a acontecer em mim.

Queria ter vivido melhor.

Mas todo dia

eu olho ao redor

e tudo parece

a mesma coisa.

Nada muda.

Então me pergunto...

Cadê o sentido

de descascar essa laranja

se ninguém

vai querer

prová-la?

vício

Certo dia me deparei.
Existe a frente.
Existe o atrás.
Se insisto em perseguir,
o que me resta para ficar?
Se quero mais,
e sempre mais,
às vezes...
é tudo o que eu não quero.
Me obrigam.
Me desejam.
Esperam de mim
algo que eu já sei
que nunca vou oferecer.
Me tragam flores.
Me tragam doces.
Me sirvam um jantar ao anoitecer.
E eu...
eu queria, sabe-se lá o quê.
Talvez apenas adormecer.
Não para sempre.
Só por um tempo.
Até que tudo voltasse
a ser
como era
antes de crescer.
Quando eu acordava
e bastava existir,
simples
como um amanhecer.
Nem gosto de fazer rimas.
Não sei por que insisto.
Talvez porque algumas palavras
soem como música
antes mesmo de terem sentido.
Se hoje eu tenho tempo,
é porque um esforço enorme
foi feito
para que o tempo existisse.
Mas a culpa...
a culpa não vai.
Eu me culpo por poder.
Me culpo por mentir
para conseguir me iludir.
Me culpo por me ter
e nunca conseguir
ser.
E o que faço
com tanto tempo
se minha mente
não me ajuda?
Ela empilha coisas.
Ideias.
Medos.
Ruídos.
Como quem enche um quarto
onde ninguém mais consegue entrar.
Eu poderia
simplesmente acabar
com tudo isso.
Mas então me lembro...
que, no fim,
o que realmente possuo
talvez não seja nada
além da porra
desse vício.

Teatro

Se eu pudesse escrever 
Sem fim, sem ritmo 
Você ainda entenderia meu sentido 
No caminho até aqui um pedaço se perdeu
Não o meu, não o seu 
Algo além do que se vê 
Meus temores se refletem 
Meus caminhos te repelentem
Eu quero mais e não por si
Eu quero mais por saber de mais
Por mais que tente não conseguiria 
Nem se a força eu tentasse 
Já tô a tempos me fazendo 
Montando de alegorias
Não me acho na bagunça 
Que eu mesmo ou você cria
Se a coragem que me falta 
De assumir esse papel
De vilão ou de mocinho
Eu busco apenas um final

faz de conta

Como aprender o passo
num chão que cede ao toque?
Se onde piso é sempre mole,
como confiar no norte?
Como seguir adiante
se o passado é inato,
insólito, insistente,
morando em cada ato?
O que faço pra sorrir
se o amor em mim é pouco?
Se tudo o que já foi inteiro
hoje cabe em tão pouco?
Faço rimas.
Faço histórias.
Canto restos da memória.
Mas nada encontra preço,
ritmo, peso ou valor.
Eu forço.
Eu arrisco.
Eu me exponho.
Eu insisto.
E, ainda assim,
em nenhum momento
eu estou presente.
Depois me escondo.
Me acanho.
Fujo de mim mesmo
como quem conhece o caminho.
Se o amor já existiu...
Se ainda existe...
Se ainda vai existir...
Que bosta é essa?
Eu só queria,
nem que fosse por um instante,
sentir de novo
um pouco de prazer.
Mas faz de conta...
Faz de conta que está tudo certo.
Porque, no fim,
é isso
que eles querem ver.

sábado, 4 de julho de 2026

Quartos

Na mesa ao lado, apenas cinzas
A frente o que já não me convence
Lençóis sujos ou tão gastos
Olhar de cima é golpe baixo 

Dentre areia e outros pelos
A sujeira impregnada 
Calma o peso do copo 
Sob as molas já sofridas

Onde joga as roupas velhas
Onde compro novos tênis 
Minhas meias já furadas
Meu passado corrompido 

Argumentos sem contexto
Ou lamentos sem presença 
Calo o rangir da porta seca
Ouço bater da sua partida

Nunca houve um recomeço 
Ontem mesmo era dia
Faz de conta e faca as contas
A porta mesmo foi eu que abri

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Dialogo 2


O sol já não ardia tanto naquela tarde, e Davi estava no parque ao lado do seu prédio. Brincava como qualquer criança de sete anos.

E era óbvio que isso teria consequências.

De longe ouviu-se um grito, depois um choro seguido imediatamente pela palavra:

— Mãe!

O eco atravessou o parque aparentemente vazio.

Como quem acorda de um delicioso sono da tarde, saiu o Sr. Cinza de dentro de um tubo verde-limão, ao lado da caixa de areia.

— Por que chora? — perguntou o Sr. Cinza a Davi, quando obviamente já sabia a resposta.

— Eu caí... ralei meu joelho no cimento. Não vê o sangue?

Sr. Cinza, já acostumado com fraturas e machucados que levaram dias para sarar, disse:

— Chora. E deixa a dor doer. Você ainda vai sentir muita dor e não vai ter essa oportunidade novamente.

Davi, sem entender nada, perguntou:

— Como assim? Não vou poder chorar? Mas por quê?

— Às vezes a gente rala o joelho pelo lado de dentro. E não tem como chorar, porque a gente nem sabe a gravidade do machucado. Você está aí chorando porque vê o sangue escorrer. Sente a ardência. Ainda tem resto de cimento na pele. Isso é a manifestação do seu machucado.

— Eu não vou mais sangrar? Nem ralar o joelho?

Sr. Cinza, já com sono novamente por gastar sua tarde consolando uma criança, respondeu:

— Vai.

— Muito?

— Muito.

Davi abaixou a cabeça.

— E o que eu devo fazer?

— Chore enquanto ainda sabe como.

A criança permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— E depois?

Sr. Cinza espreguiçou-se lentamente.

— Depois... você aprende.

Davi olhou novamente para o joelho ensanguentado e voltou a chorar.

Quando levantou os olhos, o Sr. Cinza já estava em cima do escorregador, deitado sobre a chapa ainda morna, apreciando os últimos minutos de sol.

Como se aquela conversa já não lhe pertencesse mais.

Dialogo

Era noite, o frio vinha no vento, cortava a pele.
Sr Cinza, como era conhecido entre os felinos andantes encontra um homem.
Homem esse entre e o fim e o começo. 

Se Cinza se aproxima, como gato.. como qualquer gato.

O homem meio que abre os olhos e fala

- xo gato imundo 

Sem saber se ainda vivo o homem ouviu do gato

- por que está aqui em meio ao frio, sozinho. Logo você, homem da qual a tudo pertence, eu mero andante a depender de migalhas

- o que são migalhas, quem eu sou já não importa. Eu sou uma migalha - retrucou 

- Sr Cinza, rebate. Pra ti meu caro, o que falta a mim é fartura. Seu lixo é minha riqueza e seu nada é meu tudo.

- de que sabe um gato, sobre as dores que um homem pode ter, se aqui estou é por que tusoxme falta

- o que é falta se não um espaço que não existe, você criou o espaço para preencher algo que achou que precisava. E precisava? Disse Sr Cinza olhando para cima e continuou. Vocês inventam espaços para preencher o tempo todo depois se culpam por não conseguir.

- e você lá entende de,  dinheiro? Das expectativas que noa é imposta dia a dia? De com é ser o que todos querem que vc seja?

- não respondeu Sr Cinza. Não sei nada além de ser um gato. De buscar por comida e um lugar pra dormir. De apreciar noites lindas como essa e ver humanos se resumirem a faltas e espaços vazios.

- viu, você já mais entenderá o peso que carrego, e por que estou aqui, nesse chão, talvez não acorde amanhã para descobrir se "eu" fiz falta.

- você nunca vai saber, miou se espreguiçando o Sr Cinza . Você não estando aqui jamais irá saber se faz falta. Mas com certeza alguém irá ver que você não está lá. Não sei se filhos, esposa, marido, mãe, patrão. Alguém olhará um espaço vazio. Outro espaço a ser ocupado. 

- está vendo sou apenas um pedaço de carne ocupando um espaço que irá vagar e ser ocupado em seguida. Não farei falta.

- e vc quer fazer falta?

- todos querem fazer falta, não?

- não, eu mesmo não quero ser "falta" quero ser presença. Assim como aqui e agora. Sou presente. Estou aqui não estou? E você ? Onde você não está?

- eu não estou na minha própria vida, eu me perdi, me anulei, fiz de tudo e não consegui chegar lá.

- lá? E onde é lá? Lá não pode ser aqui? Pois se o lat é aqui, é tão você chegou. Estamos sempre chegando em algum lugar. Eu cheguei aqui talvez por acaso talvez não. E vc chegou , ou melhor, está caído aí, como se lá fosse grande coisa ou melhor do que "aqui". É que lugar melhor pra se estar só que exatamente aqui e agora?

- vc jamais entenderia, vc nada é além de um gato vira latas de rua que não tem ninguém.

- mas a questão é, eu preciso de tudo isso pra saber que você merece estar aqui, e continuar aqui? Você não precisa ir a lugar nenhum a não ser o agora. Não existe espaços vazios quando você não cria espaços vazios. Por que , amanhã quando acordar, e você vai acordar, não procura menos. Deixa apenas o espaço que você ocupa nesse momento completo. Seja completo no momento presente. Quam sabe vai entendender que não tudo isso que você criou está abrindo espaços e espaços que nunca iram te caber.  Seja como um gato e apenas ocupe seu espaço em você .

- o homem dormiu, acordou com lambidas de cachorro na cara, a calçada já estava quente pelo sol. E no alto do prédio viu um vulto cinza sumir no telhado.


Flagelo

Clava forte o doce som
Canta o seus um amorgo coro
Dante meus amados anjos
Um sagrado portifólio 
Dobro em ti o meu pesar
Dói em mim soar tão frio
Me acalma o som do mar
E enfurece os meus sentidos
Queria assim como eu quero
Faça em seu o meu desejo 
Nobre, o nobre ser supremo
Mate em mim o peso e a culpa
De já não há de ter por ti
O amplo foro das licitudes
Embora fostes sempre amado
Vai em símbolos no escuro
Cai na noite enluarada 
Morre e escorre na calçada
Ó pesar quem em mim habita
Cure em minh'alma angústia fria
Choro em densos lentos passos
E me desmancho em meus braços 
Da poira e a poeira me entrelaçou
Como um meio as falsos
Sem eira e nem beira.