sexta-feira, 3 de julho de 2026

Dialogo 2


O sol já não ardia tanto naquela tarde, e Davi estava no parque ao lado do seu prédio. Brincava como qualquer criança de sete anos.

E era óbvio que isso teria consequências.

De longe ouviu-se um grito, depois um choro seguido imediatamente pela palavra:

— Mãe!

O eco atravessou o parque aparentemente vazio.

Como quem acorda de um delicioso sono da tarde, saiu o Sr. Cinza de dentro de um tubo verde-limão, ao lado da caixa de areia.

— Por que chora? — perguntou o Sr. Cinza a Davi, quando obviamente já sabia a resposta.

— Eu caí... ralei meu joelho no cimento. Não vê o sangue?

Sr. Cinza, já acostumado com fraturas e machucados que levaram dias para sarar, disse:

— Chora. E deixa a dor doer. Você ainda vai sentir muita dor e não vai ter essa oportunidade novamente.

Davi, sem entender nada, perguntou:

— Como assim? Não vou poder chorar? Mas por quê?

— Às vezes a gente rala o joelho pelo lado de dentro. E não tem como chorar, porque a gente nem sabe a gravidade do machucado. Você está aí chorando porque vê o sangue escorrer. Sente a ardência. Ainda tem resto de cimento na pele. Isso é a manifestação do seu machucado.

— Eu não vou mais sangrar? Nem ralar o joelho?

Sr. Cinza, já com sono novamente por gastar sua tarde consolando uma criança, respondeu:

— Vai.

— Muito?

— Muito.

Davi abaixou a cabeça.

— E o que eu devo fazer?

— Chore enquanto ainda sabe como.

A criança permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— E depois?

Sr. Cinza espreguiçou-se lentamente.

— Depois... você aprende.

Davi olhou novamente para o joelho ensanguentado e voltou a chorar.

Quando levantou os olhos, o Sr. Cinza já estava em cima do escorregador, deitado sobre a chapa ainda morna, apreciando os últimos minutos de sol.

Como se aquela conversa já não lhe pertencesse mais.

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