O sol já não ardia tanto naquela tarde, e Davi estava no parque ao lado do seu prédio. Brincava como qualquer criança de sete anos.
E era óbvio que isso teria consequências.
De longe ouviu-se um grito, depois um choro seguido imediatamente pela palavra:
— Mãe!
O eco atravessou o parque aparentemente vazio.
Como quem acorda de um delicioso sono da tarde, saiu o Sr. Cinza de dentro de um tubo verde-limão, ao lado da caixa de areia.
— Por que chora? — perguntou o Sr. Cinza a Davi, quando obviamente já sabia a resposta.
— Eu caí... ralei meu joelho no cimento. Não vê o sangue?
Sr. Cinza, já acostumado com fraturas e machucados que levaram dias para sarar, disse:
— Chora. E deixa a dor doer. Você ainda vai sentir muita dor e não vai ter essa oportunidade novamente.
Davi, sem entender nada, perguntou:
— Como assim? Não vou poder chorar? Mas por quê?
— Às vezes a gente rala o joelho pelo lado de dentro. E não tem como chorar, porque a gente nem sabe a gravidade do machucado. Você está aí chorando porque vê o sangue escorrer. Sente a ardência. Ainda tem resto de cimento na pele. Isso é a manifestação do seu machucado.
— Eu não vou mais sangrar? Nem ralar o joelho?
Sr. Cinza, já com sono novamente por gastar sua tarde consolando uma criança, respondeu:
— Vai.
— Muito?
— Muito.
Davi abaixou a cabeça.
— E o que eu devo fazer?
— Chore enquanto ainda sabe como.
A criança permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— E depois?
Sr. Cinza espreguiçou-se lentamente.
— Depois... você aprende.
Davi olhou novamente para o joelho ensanguentado e voltou a chorar.
Quando levantou os olhos, o Sr. Cinza já estava em cima do escorregador, deitado sobre a chapa ainda morna, apreciando os últimos minutos de sol.
Como se aquela conversa já não lhe pertencesse mais.
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