Existe em mim
uma parte
que, mesmo sem querer,
ainda luta
para ver o sol.
Para ver a lua.
Para ver, um dia,
uma flor nascer.
Não que eu plante alguma coisa.
Nem que eu tenha tempo
de esperar brotar.
Mas...
quem sou eu
para esperar?
Sempre me julgo paciente.
Até com quem
talvez não devesse.
Se o amor
me faz contente...
por que diabos
eu fujo dele?
Tenho medo.
Tenho dramas.
Choro fácil,
se insistir.
Mas quase nunca insisto.
Quase sempre
eu apenas faço sorrir.
Não a mim.
Mas todo mundo
que cruza meu caminho.
Quero que pensem
que talvez
eu seja alguém
que vale a pena ter.
Só que,
quando fico sozinho,
descubro
que não há ninguém
para ser.
Existe um eu.
E existe...
eu.
Nenhum dos dois
faz questão
de existir inteiro.
Como uma fruta
no meio das podres,
eu nunca consegui
apodrecer.
E, mesmo assim,
não sirvo para nada.
Às vezes penso
que devo ser de plástico.
Ou talvez
eu tenha apodrecido
por dentro,
sem perceber.
Talvez,
no meio do caminho,
eu tenha vivido
coisas
que nunca chegaram
a acontecer em mim.
Queria ter vivido melhor.
Mas todo dia
eu olho ao redor
e tudo parece
a mesma coisa.
Nada muda.
Então me pergunto...
Cadê o sentido
de descascar essa laranja
se ninguém
vai querer
prová-la?
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