segunda-feira, 6 de julho de 2026

Descascar




Existe em mim

uma parte

que, mesmo sem querer,

ainda luta

para ver o sol.

Para ver a lua.

Para ver, um dia,

uma flor nascer.

Não que eu plante alguma coisa.

Nem que eu tenha tempo

de esperar brotar.

Mas...

quem sou eu

para esperar?

Sempre me julgo paciente.

Até com quem

talvez não devesse.

Se o amor

me faz contente...

por que diabos

eu fujo dele?

Tenho medo.

Tenho dramas.

Choro fácil,

se insistir.

Mas quase nunca insisto.

Quase sempre

eu apenas faço sorrir.

Não a mim.

Mas todo mundo

que cruza meu caminho.

Quero que pensem

que talvez

eu seja alguém

que vale a pena ter.

Só que,

quando fico sozinho,

descubro

que não há ninguém

para ser.

Existe um eu.

E existe...

eu.

Nenhum dos dois

faz questão

de existir inteiro.

Como uma fruta

no meio das podres,

eu nunca consegui

apodrecer.

E, mesmo assim,

não sirvo para nada.

Às vezes penso

que devo ser de plástico.

Ou talvez

eu tenha apodrecido

por dentro,

sem perceber.

Talvez,

no meio do caminho,

eu tenha vivido

coisas

que nunca chegaram

a acontecer em mim.

Queria ter vivido melhor.

Mas todo dia

eu olho ao redor

e tudo parece

a mesma coisa.

Nada muda.

Então me pergunto...

Cadê o sentido

de descascar essa laranja

se ninguém

vai querer

prová-la?

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